E se o milagre não vier? Você já se questionou?

Todos temos alguma história de dor, perda, angústia ou medo para contar. Nesse tempo de pandemia então, não são poucos os dramas com os quais nos deparamos a cada dia. É o pai de família que perdeu o emprego e não sabe como colocará o pão de cada dia na mesa para sua esposa e seus filhos; a mulher grávida que teme contrair o coronavírus e ver em risco sua vida e a do seu bebê que cresce inocentemente em seu ventre; o filho que vê seu pai ser internado num hospital e por morar em outra cidade não pode acompanhá-lo, devido às restrições próprias da pandemia; a família que sequer pode enterrar seu ente querido. Esses são apenas alguns exemplos, e talvez você tenha vivido ou esteja vivendo alguma situação parecida com essas bem de perto. Nesses momentos, brota do peito ferido um grito de socorro dirigido para o Senhor. Queremos que a dor passe, que o medo e a angústia cessem. Queremos consolo em meio a esse vale de lágrimas que parece ter virado a nossa vida. A consolação muitas vezes parece vir por meio de orações de súplica que, alimentadas pela nossa esperança, aos poucos vão se tornando verdadeiros brados de vitória. Surgem então, no nosso diálogo com Deus, expressões como:

“Meu milagre vai chegar!”

“Deus vai me honrar!”

“Eu proclamo a vitória de Deus na minha vida!”

O clamor do pedido de milagre vem acompanhado de dor

Usualmente, esse tipo de oração é seguido por lágrimas e grandes louvores, que trazem a sensação de alívio ao coração. Mas é um sentimento diferente de paz, porque há uma condição vinculada a ele. O alívio vem porque creio que o milagre vai chegar, a vitória vai acontecer, Deus vai me honrar, a graça que pedi me será concedida. A pergunta que fica é: e se o milagre não vier? É justo que peçamos socorro a Deus, que imploremos que Ele nos livre das nossas angústias. Contemplemos o itinerário de Jesus na Via-Sacra. Quando Ele estava com o coração dilacerado de dor no Horto das Oliveiras, também pediu socorro ao Pai. O pedido de Jesus, contudo, foi um pouquinho diferente. Ele esclarece logo que está pedindo desde que aquilo seja possível dentro dos planos do Pai e acrescenta um “mas” que muda tudo: “Se for possível, Meu Pai, afasta de mim esse cálice, mas não se faça o que eu quero, e sim o que tu queres”.

Quantas vezes temos coragem de suplicar a Deus nesses termos? Senhor, se for possível, afasta de mim esse cálice da doença, da infidelidade do cônjuge, do desemprego, da solidão… Mas não se faça o que eu quero, mas o que tu queres! Quantas vezes eu rezo a Deus assim, a oração completa? Será que estou parando no “afasta de mim o cálice” e já pulo para o “proclamo a vitória de Deus” ou “Deus vai me honrar” e “o milagre vai acontecer”? Depois que Jesus pede socorro ao Pai, seu sofrimento só se intensifica, até chegar à morte humilhante na cruz. Em que momento da Paixão podemos imaginar Jesus proclamando que o milagre iria acontecer na sua vida, ou dizendo que o Pai iria honrá-lo e extinguir aquele sofrimento? Sabemos como Jesus foi glorificado: após o sofrimento e a morte. Ele não foi poupado de nenhum dos seus sofrimentos, muito menos da cruz. Ele é o cordeiro imolado, vítima inocente, sem pecado, enquanto eu sou apenas um miserável que o ofendo incontáveis vezes ao longo do dia com meus pecados.

Como posso querer escapar da cruz?

Há dois riscos intrinsecamente ligados quando a minha oração passa a ser pedir incessantemente a Deus a graça, o milagre, a vitória. O primeiro é esquecer o fundamental: a Graça, o Milagre e a Vitória já aconteceram há dois mil anos, quando Deus se fez homem, anunciou a Boa Nova e morreu para me redimir dos meus pecados. Sem eu merecer, a vitória de Cristo sobre a morte me deu por graça o céu, que deve ser o que mais desejo na minha vida. O segundo risco é parar de olhar para o Cristo, que morreu para me dar tão grande graça, e olhar somente para mim: eu que sofro, eu que tenho medo, eu que estou angustiado, eu que preciso de um milagre, de um emprego, de um marido ou de um filho. Se não consigo sair dessa realidade, com o tempo as coisas começarão a se inverter e um pensamento terrível pode se formar dentro de mim: na verdade, é Deus quem está em débito comigo, não o contrário. Eu rezo, eu suplico, eu choro, eu louvo. Eu sofro, eu espero, eu não alcanço o que quero. Eu “estou fazendo tudo certo”, mas o sofrimento continua, então a que conclusão eu chego? Deus está me devendo! Aos poucos, vou ficando cego para os meus pecados, minhas misérias, para a necessidade que eu tenho de me converter e começo a me achar no direito de proclamar que “Deus vai me honrar”, me concedendo as graças que peço. Não! Está tudo errado, tudo invertido. Eu tinha uma dívida que jamais teria como pagar, e Jesus a quitou de maneira irrevogável e definitiva com a sua morte na cruz. Foi um ato gratuito de Deus, por amor, mas ao mesmo tempo que deixei de ser devedor perante a Justiça Divina, tornei-me devedor ainda maior diante da Misericórdia de Deus. Ele não me deve nada, absolutamente nada. Minhas orações e meus louvores devem ser movidos, portanto, por uma imensa gratidão por esse Deus tão amoroso. Por conta disso, a minha oração mais frequente deve ser para que Deus converta meu coração, e não que me conceda essa ou aquela graça.

Devo então ignorar meu sofrimento, fingir que ele não existe? Nada mais distante disso. Na Canção Nova há um termo próprio da nossa espiritualidade: os “tempos fortes”. Fazem parte dos tempos fortes as visitas de Deus, que podem ser os momentos de dor, doença e cruz. O Monsenhor Jonas Abib nos ensina que esse é um tempo de graça, e por isso precisamos ser sensíveis à presença de Deus e ceder tempo e espaço para que Ele possa agir. Há uma graça sobrenatural que Deus reserva para esses momentos e que produz frutos de conversão profunda para a vida do cristão. Nós só conseguiremos experimentar essa graça e colher esses frutos, entretanto, se estivermos firmes na vida de oração, que nos auxiliará a nos mantermos na perspectiva da fé: ainda que a dor seja grande, trata-se de uma preciosa visita de Deus, e por isso devo louvá-lo. Ninguém quer sofrer, mas, como diz a canção, há um reconhecimento de Deus que só acontece na cruz. Se a dor é inevitável, que eu não a desperdice, mas a aproveite para mergulhar nos mistérios da Paixão de Cristo, que sofreu muito mais do que eu. Voltemos mais uma vez nosso olhar para Jesus, que não tinha pecado: Senhor, se possível, afaste de mim esse cálice, mas que não seja feita a minha vontade, mas a sua.

Peça ao Senhor a graça, mas também força

Se é possível, Senhor, afaste de mim o medo, a dor, a angústia, a provação que vivo hoje. Se é possível, conceda-me a graça, o milagre que eu peço, mas não esqueça, Senhor: que não seja feita a minha vontade, mas a sua. Se o milagre não vier, ainda assim eu creio na Sua infinita bondade. Se a graça não acontecer, continuo a crer que és onipotente e sabes tudo. Se o que eu peço não se realiza, Senhor, que eu me converta então nesse tempo de dor e de espera. Talvez eu esteja precisando aprender a amar mais, ou a perdoar mais. Talvez eu precise da humilhação para diminuir o meu orgulho ou da dor para crescer na fé. Não sei, Senhor, mas sei que o que mais quero é te agradar. O milagre que quero é a conversão, Senhor. A graça que quero é merecer o céu. A vitória que quero é abraçar a minha cruz. E só assim quero ser honrado, Senhor: com a salvação da minha alma.

Fonte: portal cancaonova.com – José Leonardo Ribeiro Nascimento

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