Vácuo existencial

Existe uma recomendação no evangelho de São Mateus feita por Jesus da seguinte forma: “Brilhe vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus”. (Mateus 5, 16).

Aqui vale a pena destacar alguns detalhes: “brilhe vossa luz” – Significa que todos têm uma luz própria. Ora, partindo do princípio de que luz, por si só brilha, ilumina, por que Jesus ordena para que “brilhe vossa luz”? Poderíamos dizer que tal ordem é tão óbvia, que seria desnecessária? É certo que não. O que podemos afirmar é que apesar ter uma luz própria, nem todos permitem que ela brilhe. Mas que sentido teria uma luz que não brilha? Se assim for, não é luz e sim escuridão. Desta forma, uma luz só é luz, quando é luz. Caso contrário ela é tudo, menos luz. Uma vez que temos luz em nós, ela precisa brilhar. E o que essa luz que Jesus afirmou que temos? Ela é mais que uma aptidão, está acima de uma profissão, é um Dom, um talento, um chamado. Cada pessoa nasce com um Dom, um talento, um chamado; mas é necessário brilhar. Brilhar é antes de tudo tomar posse, é afirmar primeiro para si próprio: eu tenho uma luz. O brilho dela começa nesse momento. Um segundo momento é investir nesta luz, aperfeiçoar ela, literalmente “treiná-la” para que seu brilho aumente. Então vamos lá:

1º) Tomar posse, não é uma questão de “pensamento positivo”, é assumir que a luz é sua, que podem existir muitas luzes até parecidas, mas que você tem a sua e a sua luz é importante e sem ela faltará um pouco de claridade no mundo. Esse tomar posse é também não comparar a sua luz com outra, pois cada luz tem sua importância. E ainda, ter inveja do brilho de outra luz é negar a sua e desejar algo que não é seu e isso não vai funcionar, pois sua luz só brilha em você e a luz do outro só brilha no outro.

2º) Investir na sua luz é aplicar-se em conhecê-la, para que conhecendo-a, a faça brilhar mais e mais. Lembra que falei que a luz é o Dom, o talento, o chamado? Para que haja brilho, você precisa investir nele: estudar sobre ele, pesquisar até mesmo conversar com pessoas que tenham Dons, talentos e chamados semelhantes (com o cuidar de não se comparar, nem invejar). Suponhamos que esta sua luz é ensinar. Pergunte a você mesmo: O que quero ensinar? (religião, história, ser palestrante, coaching…) A quem quero ensinar? (crianças, jovens, adultos, na Igreja, em empresas…). Pode ser que seja necessário buscar ajuda através de pesquisas, conversas, pessoas que são desta área… E por fim, ir treinando. Comece sozinho, treine com amigo, amigos, peça ajuda, se voluntarie… Invista na sua luz, só assim ela vai brilhar.

Outro detalhe importante no texto é “para que, vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus”. Tomar posse de que tem um luz e investir para que ela brilhe é muito responsabilizante. Não deve ser feito em prol de uma louvação pessoal, mas sim de uma resposta Àquele que me abençoou com um talento que é d’Ele, me tornando partícipe no processo de transcendência do ser humano. Pois viver sem um sentido, acreditando que a vida se limita a trabalhar, passear, ganhar dinheiro, fazer sexo… é deveras penoso. A busca pelo louvor a si, nos é mostrada pela história, a imensidão de males que causou, tornou e torna pessoas doentes, infelizes, frustradas, suicidas e assassinos. Existe no ser humano uma sensação de falta de sentido e de vazio, conhecida como “vácuo existencial”. Viktor Frankl (1905 – 1997) criador de um método terapêutico baseado na busca pelo sentido da vida – a Logoterapia, dizia que “há pacientes que se dirigem ao psiquiatra porque duvidam do sentido da vida ou porque já se desesperaram até de encontrar, em geral, um sentido para a vida”. E ainda que “quando ele (ser humano) não conhece nenhum sentido na vida, ele zomba da vida, ainda que externamente possa parecer ir bem, e então sob certas circunstâncias ele põe tudo a perder” (Frankl, 1990, p. 26).

O preenchimento do já citado “vácuo existencial” só acontecerá quando da tomada de consciência de que se tem uma luz e pelo empenho em fazê-la brilhar e esse brilho é para que a humanidade se torne mais iluminada. Sem ele, faltará um pouco de luz do mundo.

Edson Oliveira

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